A relação entre a temperatura e a maturação da manga: Um estudo na baixada cuiabana
Fundada em 1729, a Vila Real do Senhor do Bom Jesus de Cuiabá, localizada no interior do território brasileiro, sempre teve a comunicação com o restante do País como principal entrave para seu desenvolvimento. O abastecimento de alimentos para a sua população, realizado pelas monções cuiabanas (Tietê-Cuiabá), tornou-se ainda mais difícil com a Guerra do Paraguai, na segunda metade do século XIX. Isolada do restante do País, o abastecimento da Vila passou a ser realizado pelas grandes propriedades de senhores de escravos e pequenos sítios dedicados a gêneros de abastecimento ao mercado local.
As lembranças destes tempos de escassez e extrema penúria, vividos no passado, estabeleceram profundas raízes entre os cuiabanos, especialmente na forma de ocupação da sua malha urbana pelo costume de se plantar quintais nos lotes urbanos. Além dos extensos fragmentos remanescentes de cerrado, são pitombeiras, cajueiros, cajazeiros, goiabeiras, e principalmente mangueiras, que renderam à cidade de Cuiabá o rótulo de “Cidade Verde”.
Além de importante fonte de nutrientes para a população, as mangueiras que se espalham por toda a cidade, conhecida pelas elevadas temperaturas o ano todo, são essenciais para a amenização climática dos ambientes urbanos. Procurando entender o efeito de parâmetros ambientais e da planta sobre o crescimento das frutas e sobre o tempo exigido para a maturação professores e estudantes do Programa de Pós Graduação em Física Ambiental da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) desenvolveram um trabalho com o objetivo de determinar a exigência térmica do fruto da mangueira na Baixada Cuiabana.
Sabendo que os aspectos de crescimento e desenvolvimento da mangueira são direta e indiretamente influenciados por fatores ambientais, e que as diferenças entre os ciclos de maturação das frutas na planta podem ter como causa as oscilações na temperatura do ar em cada região, a pesquisa avaliou a maturidade do fruto da mangueira através do método da soma das unidades fototérmicas (UF).
Este método relaciona o desenvolvimento do fruto com o fotoperíodo, duração efetiva do dia, e com a soma das unidades térmicas. Também conhecidas por Graus-dias (GD), as unidades térmicas pressupõem a existência de uma temperatura base, abaixo da qual a planta não se desenvolve, assim, cada grau da temperatura média do dia, acima da temperatura base, corresponde a um grau-dia. A soma acumulada de GD até a maturação é uma boa forma para se estimar o tempo necessário para o desenvolvimento do fruto após a floração.
O experimento foi realizado em mangueiras de um campo demonstrativo existente na Fazenda Experimental da UFMT, no município de Santo Antônio de Leverger, MT, na microrregião da Baixada Cuiabana. As amostragens foram efetuadas em uma área irrigada, de cerca de um hectare, de um campo demonstrativo de mangueiras da cultivar 'Alfa', transplantadas para o lugar em 2003, dispostas no espaçamento de 6 x 8 m.
Durante o pleno florescimento das mangueiras, a partir de julho de 2007, tiveram início a instalação e a condução do estudo. Os frutos foram acompanhados e medidos quinzenalmente. As avaliações se estenderam até o amadurecimento dos últimos frutos, em janeiro de 2008. Os dados diários da temperatura do ar foram obtidos por meio do registro das observações meteorológicas de rotina efetuadas na Estação Agrometeorológica Padre Ricardo Remetter, que integra a rede do 9º DISME/INMET, instalada a aproximadamente 1 km do local do experimento.
A exigência fototérmica média, do início da frutificação até a colheita, encontrada no trabalho (1.878.166,1 UF) possibilitou determinar a temperatura-base de 10 °C para o ciclo de manga 'Alfa' na Baixada Cuiabana, valor semelhante ao encontrado em estudos com mangas de diferentes variedades realizados em outras regiões do País.
O valor médio das unidades térmicas acumuladas para o ciclo da manga 'Alfa' na Baixada Cuiabana foi de 2116,5 °C, para um período de maturação variando entre 102 e 121 dias. Estes valores, congruentes com os resultados encontrados em outros estudos, indicam a unidade fototérmica como um método mais racional para estimar com boa aproximação o valor da temperatura-base inferior e o período de maturação do fruto de manga, uma vez que esta variável climática combina a ação da temperatura e do fotoperíodo sobre a maturação dos frutos.
Os resultados do estudo evidenciam a existência de condições favoráveis na região do estudo ao cultivo da manga, além de outras frutíferas de clima tropical. Apesar disso, no Estado de Mato Grosso a exploração da manga ocorre apenas em regime extrativista, não tendo uma participação considerável no mercado nacional do fruto.
O aumento populacional e a redução das áreas verdes urbanas aliadas à inexistência de uma política estadual para fruticultura e a desorganização do setor resultam em uma grande dependência de outros estados para o abastecimento local de frutas, inclusive manga, um problema secular ainda não resolvido.
Fonte: TodaFruta
Data: 06/12/2010
