Artesanato de fibra da bananeira
A bananeira é uma das plantas mais populares do Brasil. É valorizada praticamente só pelo fruto que ela dá. Mas além de frutos, a bananeira também pode se transformar em peças de artesanato originais e criativas.
As fibras da folha da bananeira são resistentes e flexíveis. O trabalho com essa matéria-prima está melhorando a renda de famílias do meio rural em duas comunidades, uma em Minas Gerais e outra no Rio de Janeiro.
“Todos cantam sua terra
Também vou cantar a minha"
Os versos são do poeta Casimiro de Abreu e foram dedicados a uma cidadezinha que leva o nome dele.
Casimiro de Abreu tem 27 mil habitantes e fica na região norte do Rio de Janeiro, a 150 quilômetros da capital do Estado. O poeta nasceu no distrito de Barra de São João, lugar de praias muito tranquilas.
Casimiro de Abreu morreu em 1860 e foi sepultado nos fundos da igreja de São João Batista, pertinho do mar. No túmulo dele se vê mais um poema dedicado ao lugar.
“Ó que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais”, escreveu.
No lugar se pode visitar também a casa onde ele nasceu.
No meio das montanhas ficam as lavouras de banana, principal cultura de Casimiro de Abreu. Mas, além de produzir frutos, os bananais fornecem outro produto.
Todos os dias, funcionários da Prefeitura recolhem parte das plantas que sobram após a colheita. Eles retiram apenas cerca de 30%. O restante fica para se decompor e fornecer matéria orgânica ao solo.
O material recolhido é levado para a oficina de artesanato, mantida pela Secretaria de Ação Social de Casimiro de Abreu.
As cascas são chamadas de bainhas e ficam superpostas, formando o que normalmente é chamado de tronco. No caso da bananeira o mais correto em termos técnicos é chamar de pseudo caule, por se tratar de uma parte da folha. É de onde saem as fibras usadas no artesanato. Tem a fibra interna e a renda.
As mulheres levam as fibras para secar ao sol. O pessoal ganha por produção. Depois que está treinado para o serviço, passa a trabalhar por conta própria, em casa mesmo, e libera o lugar para uma nova turma de aprendizes.
Mais de 400 pessoas já passaram pela Casa do Artesanato, onde aprendem todas as fases de produção, desde a retirada da fibra ao manejo do tear, onde se faz o tecido da bananeira.
Nos teares manuais, igualzinhos aos que são usados para tecer fios de algodão, as fibras vão ganhando formato de tecido. Algumas são usadas ao natural e outras recebem um tingimento.
A dona Vanderléia Taroquela, também conhecida por dona Léia, colore as fibras. Ela disse que a tinta é a mesma usada nos tecidos de pano. Para pegar bem a cor, as fibras ficam 15 minutos num caldeirão com água quente.
Do caldeirão, o material volta para secagem no varal. Com a renda elas fazem esteiras, tapetes, jogo americano e jogo de banheiro. Também dá para fazer cortina.
Além de complementar a renda da família, o artesanato é usado como terapia ocupacional.
A dona Julia foi aluna da Casa do Artesanato durante um ano e quatro meses. Hoje, ela é uma das instrutoras. “Eu era do lar e nem sabia que a fibra da bananeira dava tanta coisa bonita”, disse.
A renda tem a vantagem de pegar bem as cores do tingimento, mas o tecido não é maleável. Já a fibra interna tem dificuldade para aceitar as cores, mas permite um aproveitamento bem maior.
Dos teares os tecidos vão para as mãos das costureiras. Os produtos acabados são vendidos na lojinha da Casa do Artesanato de Casimiro de Abreu. Há grande variedade de coisas de fibra de bananeira. As mochilas e bolsas femininas são as que fazem mais sucesso.
Viviane Rocha é freguesa cativa. Ela compra pra ela e gosta também de presentear os amigos.
A equipe de reportagem deixou o litoral norte do Rio de Janeiro e viajou para as montanhas da Serra da Mantiqueira, no sul de Minas Gerais. Na região tem azeitona, mas o forte é o café e a banana.
Em Maria da Fé, as mulheres da zona rural foram treinadas para utilizar outra parte da fibra da bananeira. Elas trabalham com as folhas secas.
Depois de juntar as folhas, elas voltam para casa. As fibras são colocadas de molho para facilitar o serviço. Elas trabalhavam numa encomenda de móveis para sala de visita. A armação é de madeira e o revestimento é feito em fibra de bananeira. Enquanto umas teciam, outras preparavam a matéria-prima.
Quando não está lidando com o café, o seu José do Carmo ajuda a mulher dele no preparo das cordinhas de fibra de bananeira, matéria-prima muito usada no artesanato.
Com a maquininha adaptada por eles, o serviço rende muito mais como explicou dona Silvia. “Antigamente, eu fazia dois quilos por mês. Agora, faço de dois a três por dia. Aumentou muito. A maquininha, em geral, é usada para tecer lã”, disse.
Graças à maquininha o casal acabou se especializando só na produção de matéria-prima e para a fabricação de tapetes.
As bainhas jovens retiradas dos brotos da bananeira também são aproveitadas pelas artesãs da cidade de Maria da Fé. As fibras são cozinhadas nos panelões. Depois de lavadas, ficam parecendo fios de ouro. É com eles que a dona Valéria decorou um prato.
A massa usada por ela é feita de papelão reciclado, num processo chamado de papel machê. Os papelões rasgados são triturados num liquidificador industrial junto com água. O resultado é uma pasta que recebe uma porção de cola.
Depois, o material é misturado até dar liga. Valéria forra uma forma de prato com plástico, coloca a fibra e vai moldando o prato. Então, ela espalha cola nas fibras para dar aderência na hora de decorar o prato.
O pessoal que trabalha na oficina de artesanato de Maria da Fé recebe o sugestivo nome de gente de fibra.
Os artesãos têm um carinho especial pelos desenhos das bordas dos pratos. Eles foram copiados das pinturas existentes no interior da Igreja Matriz. Os detalhes que os artesãos mais copiam são os do teto e os do piso da igreja.
Contando com quem trabalha na zona rural, hoje são mais de 200 pessoas que fazem parte do projeto. É gente como a Valéria, sempre muito orgulhosa do que faz. “Meu trabalho já foi para a Itália, Estados Unidos, França, Portugal, Estados Unidos”, disse.
As possibilidades de uso da fibra da bananeira são tão variadas que os artesãos de Maria da Fé, em Minas, e Casimiro de Abreu, no Rio de Janeiro, que não se conhecem uns aos outros, desenvolveram técnicas diferentes para fazer os trabalhos. Nos dois casos, o resultado é igualmente encantador.
A fibra da bananeira é usada também na produção de papel decorativo para móveis e outros objetos. E com a imaginação do pessoal a lista de usos poderia aumentar ainda mais.
Fonte: Globo Rural
Publicada: 22/04/09
