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Melão de grife

Após anos de prejuízo vendendo a preços baixos, uma cooperativa do Rio Grande do Norte conquista o primeiro selo Comércio Justo do mundo para a fruta, exporta para a Europa e recebe remuneração acima da média de mercado

Eles conquistaram a independência no dia 7 de setembro do ano passado. Os "libertados" eram 20 pequenos melonicultores associados à Cooperativa de Desenvolvimento Agroindustrial Potiguar (Coodap), da comunidade Pau Branco, situada a cerca de 30 quilômetros de Mossoró, a "capital" do oeste do Rio Grande do Norte. Ali, naquele dia - desde então uma data duplamente histórica na região -, eles receberam o certificado Fairtrade (na tradução, Comércio Justo) da Flo-Cert, uma das mais conceituadas certificadoras do mundo.

O selo atestou oficialmente a qualidade de seus produtos, a sustentabilidade de suas lavouras e o respeito aos direitos das crianças e trabalhadores, após três anos de cursos e adequações em suas propriedades. O esforço fez da Coodap o primeiro caso em todo o mundo de um grupo produtor de melão com a certificação. No final de janeiro de 2010, apenas três meses após receberem o selo, eles finalizaram a remessa de dez contêineres para a Inglaterra e comemoraram a conquista de paga justa suficiente para sonhar com melhores dias para suas famílias e com progresso para a comunidade .

Até aquele momento, ganhar com a atividade dividendos capazes de cobrir os custos de produção era algo tão imprevisível como as variações climáticas atuais. Há quatro anos, grandes empresas produtoras de melão da região passaram a plantar a mesma variedade então cultivada pelos melonicultores de Pau Branco, a cantaloupe.

"Boa parte da produção do estado, a princípio voltada ao mercado externo, acabava ficando dentro do país, resultando em excesso de oferta e forte queda nos preços pagos aos pequenos produtores locais", explica Franco Marinho Ramos, gestor do projeto de fruticultura do Sebrae-RN, que apoiou a Coodap em sua luta por melhores condições de trabalho e comercialização.

Diante do impasse, a entidade propôs à comunidade um longo processo de treinamento e adéquações visando à negociação das frutas no mercado externo com melhor remuneração. Ao longo de três anos, eles participaram de uma série de cursos sobre associativismo, cooperativismo, técnicas de vendas, boas práticas agrícolas e logística, entre outros temas. Os investimentos do Sebrae-RN, incluindo os custos da certificadora e de consultorias, totalizaram 70 mil reais, segundo seu gestor.

Entre as obrigações no campo, estão o uso exclusivo de agrotóxicos permitidos pela Flo-Cert, a redução da aplicação de defensivos e o cultivo de árvores em torno da plantação para evitar a passagem do produto para fora daquela área. A conservação de 20% da mata nativa da propriedade, referente à Reserva Legal, é regra obrigatória, assim como o combate ao desmatamento, à caça de animais e ao descarte de lixo na terra. Outro requisito básico é que todos os filhos dos cooperados frequentem a escola.

A conquista da certificação se deve, em grande medida, à mobilização empreendida pela presidente da Coodap, Maria do Socorro Ribeiro, 35 anos, a "Socorrinha", à frente de um grupo predominantemente masculino - 16 homens e quatro mulheres. Criada em Pau Branco, sua história retrata os reveses enfrentados pelos vizinhos de comunidade. A família tinha um lote de 20 hectares, mas, depois de casada, Socorro e o marido, Ubiratan Oliveira, desejavam ter o próprio pedaço de terra.

Em 2002, compraram 31,2 hectares com os 10 mil reais obtidos da venda de suas duas motos. "Precisávamos furar poços, comprar bomba de irrigação, eletrificar e estávamos lisos. Procuramos, então, fornecedores com quem tínhamos crédito", lembra Ubiratan. Naquele ano, só um hectare foi cultivado. Hoje, são 20 hectares plantados no lote de 42 hectares.

Com propriedade compar

ativamente grande, Socorrinha e Ubiratan se tornaram exceção em Pau Branco, já que a maioria dos 20 cooperados tem sete hectares, em média. No entanto, das dez fazendas de modestas proporções com os primeiros contratos pós-Fairtrade, saíram as dez toneladas de melão amarelo do tipo 6, 7 e 8. A cada semana, uma delas enviava a colheita de um hectare, correspondente ao volume de um contêiner, à Univeg - empresa inglesa que distribui frutas, verduras, flores e plantas frescas para mais de 25 países. No total, cerca de 200 toneladas foram exportadas.

As custosas adaptações foram recompensadas pelos bons preços pagos aos produtores. Segundo Franco Ramos, a Coodap recebe valores cerca de 20% mais altos que os comercializados no mercado internacional, hoje em torno de 0,60 real por quilo. A cooperativa ainda tem direito a mais 0,10 de dólar por quilo exportado, a ser aplicado em projetos sociais para a comunidade. Socorrinha já visualiza a construção de um posto médico na localidade.

O gestor do Sebrae estima que, em junho, novos contratos poderão ser firmados. "Somente a demanda da Univeg pode absorver o dobro ou o triplo do volume já enviado", estima. Ainda no final do ano passado, a Coodap conquistou outros dois importantes selos: o Globalgap, de exigências semelhantes às da Flor-Cert e que habilita produtores a comercializar com diversos países, e o PIF (Produção Integrada de Frutas), selo concedido pelo governo federal. Como tantas outras comunidades rurais brasileiras deficitárias, Pau Branco busca apoio e preços justos. Diferentemente da maioria delas, eles conseguiram.

Fonte: Revista Globo Rural

Publicada: 03/05/2010

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