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Novas fronteiras para a fruticultura

Em cerca de três anos, o Rio Grande do Norte poderá dar início à produção de maçã, kiwi, pêra e café, culturas típicas de regiões frias, que serão testadas para prosperar também no clima quente do RN. A adaptação em áreas como Mossoró e Vale do Açu será estudada por pesquisadores da Embrapa Semi-Árido, da Emparn e da Ufersa e, caso os resultados sejam favoráveis, poderão abrir novas fronteiras, mercados e empregos para a fruticultura do estado, duramente atingida pelas enchentes e pela crise este ano.

O projeto para dar novas opções á produção agrícola foi apresentado pela Embrapa Semi-Árido à Fundação de Apoio à Pesquisa do RN (Fapern), como demanda do setor produtivo. Os fruticultores teriam conhecido experiências em outros estados e se interessado em testá-las também localmente. “É mais uma oportunidade que estamos buscando para ampliar nossa grade de frutas e preencher, por exemplo, a lacuna deixada pelo melão durante os quatro ou cinco meses em que não é produzido”, diz o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico e presidente licenciado do Comitê Executivo de Fitossanidade, entidade que reúne os produtores de melão do estado, Francisco de Paula Segundo.

Pesquisa

A adaptação das novas culturas será pesquisada com recursos da Fapern. Algo em torno de R$ 300 mil ou R$ 350 mil serão desembolsados para desenvolver os estudos, segundo a presidente da Fundação, Isaura Rosado. O dinheiro é necessário para comprar, por exemplo, insumos para a produção, como sementes e adubo, e para pagar aos operários que vão trabalhar no campo. A expectativa é que comece a ser liberado em 30 ou 40 dias.

Com os recursos garantidos, os pesquisadores pretendem cultivar áreas disponibilizadas por cerca de 80 médios produtores que trabalham com produção irrigada no estado. As áreas medem de 1 a 2 hectares e foram cedidas voluntariamente por eles, diz o professor e pesquisador da Ufersa, José Francismar de Medeiros. Foi ele quem analisou para dar, a pedido da Fapern, o parecer técnico necessário sobre o projeto.

Medeiros explica que os estudos terão como foco variedades como maçã, kiwi, pêra e o chamado café conilon, cujo potencial produtivo chega a ser até três vezes maior que o do café arábico, cultivado no Sudeste e em regiões serranas. O cultivo se daria através do manejo da irrigação e da aplicação de fitormônios – hormônios vegetais que ajudariam a estimular a produção dos frutos.

“A ideia é testar diferentes tecnologias que façam as plantas produzirem bem. Serão pesquisados a quantidade de água, o solo, o manejo como um todo. Vai ser preciso adequar tudo, desenvolver o pacote tecnológico para que produzam de forma satisfatória”, detalha o pesquisador, acrescentando que a expectativa é, em três anos, repassar o pacote aos agricultores. Há a possibilidade de, também dentro desse prazo, ser dada a larga para a produção comercial das frutas no estado.

A expectativa é que as culturas possam ser trabalhadas em qualquer parte do RN, desde que haja disponibilidade de água e de solos irrigáveis. Com atuação na área de irrigação de fruteiras, Medeiros aposta em maior potencial de produção, porém, nas regiões de Mossoró, Vale do Açu e no litoral potiguar. “No período de entressafra de outras regiões produtoras poderíamos ajudar a suprir a demanda do mercado e conseguir bons preços para os produtos”, estima ainda ele.

Novas culturas prometem mais empregos

A busca por alternativas na fruticultura pode trazer novas fontes de renda e opções de mercado para os produtores do estado, mas, mais do que isso, pode gerar novas oportunidades de trabalho para o homem do campo, um dos mais atingidos pelos cortes no mercado formal do Rio Grande do Norte este ano.

Para se ter uma ideia do baque sentido no setor, dados do Ministério do Trabalho e Emprego mostram que, de janeiro a maio, 3.138 empregados com carteira assinada somente no cultivo de espécies frutíferas rasteiras - como é o caso do melão - foram desligados de suas funções no RN, sendo 1.816 sem justa causa e 1.433 por término de contrato.

Os números refletem as dispensas promovidas pela Nolem, a maior produtora de melão no Brasil - que, segundo fontes extra-oficiais, teria encerrado as operações - a entressafra do melão e cortes decorrentes das cheias que voltaram a atingir o interior.

Para a presidente da Fapern, Isaura Rosado, o aquecimento do mercado de trabalho é só um dos ganhos esperados com a introdução de novas espécies na atividade. “Quando começar a produção, com certeza isso vai se refletir no campo”, analisa.

O engenheiro agrônomo e supervisor de pesquisas agropecuárias do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística no RN, Tarcísio Lopes Soares, faz coro. “Um hectare de fruteira emprega bem mais gente do que um hectare de feijão ou milho”, garante ele, ponderando que o custo de implantação desse tipo de cultura é, no entanto, maior, se comparado com o que é necessário para se produzir grãos.

"Mas a fruticultura você implanta e permanece muito tempo cultivando, não precisa de replantio todo ano. Isso acaba sendo uma vantagem, apesar do custo inicial”, acrescenta ainda.

Ainda sobre a geração de trabalho, José Francismar de Medeiros, da Ufersa, calcula que “toda cultura irrigada gere no mínimo de um a dois empregos por hectare”. “Isso considerando somente os empregos diretos, na lavoura. Fora eles, são criados cinco empregos indiretos por hectare, o que inclui, por exemplo, o caixa que vai vender o insumo agrícola e outros trabalhadores”.

Setor espera recuperação este ano

As pesquisas na fruticultura deverão ter largada num dos piores momentos enfrentados pelo setor, incluindo queda nas exportações, nos preços, demissões e inadimplência. Os resultados da atividade não deverão ser, porém, de todo negativos este ano. “Vamos diminuir a oferta no exterior para conseguir manter os preços”, diz o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico e presidente licenciado do Coex, Francisco de Paula Segundo. Ele acrescenta que os fruticultores estão confiantes na recuperação.

Na visão do secretário, a produção de novas espécies também pode ajudá-los a diluir as perdas em cenários turbulentos como esse. Com produtos alternativos, eles não ficariam sem opções de produção e de vendas na entressafra do melão, por exemplo. “Com a produção de pêra, maçã, kiwi e café vamos dar um ganho substancial à produção e poder abastecer o mercado do Nordeste, abastecido hoje por Sul e Sudeste. Vamos ter possibilidade de ofertar essas frutas com preço melhor, por estarmos mais perto, e com qualidade excelente”, estima.

Caso os resultados da pesquisa sejam positivos, o Rio Grande do Norte também poderá garantir, entre outros ganhos, mais segurança para o produtor, diz o supervisor de pesquisas agropecuárias do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística no RN, Tarcísio Lopes Soares. “Quanto mais variedade, mais segurança”, reforça ele, acrescentando que a fruticultura traz perspectivas de trabalho e de lucros não só para os “grandes”.

Soares defende o estímulo ao desenvolvimento também de culturas nativas como umbú, cajá, cajarana e mangaba, “frutas bem aceitas mas que são exploradas de forma extrativa, sem cultivo de forma comercial”. “Acho que essas plantas já possuem adaptação natural a nossa região e a população local já consome as frutas de várias maneiras. Dessa forma, já teríamos um certo mercado”, frisa ele, mas lembra que é necessária a realização de estudos sobre rendimento por área, tempo para produção comercial, custos de implantação e manutenção de pomares.


Fonte: Tribuna do Norte
Publicada: 20/07/09

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