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Os desafios da fruticultura brasileira

Falta de padrões de qualidade expõe ineficiência da cadeia produtiva e afugenta os consumidores das gôndolas dos supermercados, avalia especialista do Ibraf

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revelam que o valor bruto da produção de frutas atingiu R$ 17,2 bilhões em 2008. Entretanto, o pujante setor, que gera cerca de cinco milhões de empregos diretos, ainda precisa superar inúmeros obstáculos para continuar crescendo.

Enquanto a OMS (Organização Mundial de Saúde) recomenda a ingestão per capita de 100 quilos de frutas frescas ao ano, estima-se que o consumo no Brasil esteja em torno de 60 quilos anuais.

“Para alcançarmos esse número ideal, precisamos estimular o consumidor, através de ações de marketing, mostrando que nossas frutas são, acima de tudo, saborosas. E tal iniciativa deve vir acompanhada da adoção efetiva de padrões de qualidade”, diz o engenheiro agrônomo Maurício de Sá Ferraz, presidente da Câmara Setorial de Frutas do Estado de São Paulo e gerente técnico do Ibraf (Instituto Brasileiro de Frutas).

“Sabemos que os consumidores no Brasil e no exterior estão exigindo que os produtores demonstrem que estão produzindo de forma sustentável, respeitando o meio ambiente e os aspectos relacionados à segurança alimentar”, acrescenta.Em entrevista ao JE, o especialista lembrou que as novas técnicas de produção, variedades e tecnologias desenvolvidas pelos cientistas brasileiros continuarão a alavancar o setor nos próximos anos.

“As instituições de pesquisa são de fundamental importância para o processo, produtivo, pois contribuem para melhorar as condições da produção à pós-colheita”, afirma. A seguir, trechos da conversa:

Jornal Entreposto – Quais são os principais gargalos da fruticultura nacional e como superá-los?

Maurício de Sá Ferraz – O principal é o custo Brasil, que vem acabando com a competitividade das frutas brasileiras no mercado internacional, mas podemos ainda mencionar a falta de registro de defensivos de novas gerações e a baixa disponibilidade de crédito como problemas recorrentes A deficiência na área de transporte, logística, armazenagem, manuseio nos portos e, em alguns setores, a falta de mão de obra especializada também atrapalham o desenvolvimento do setor, assim como a pouca integração entre o governo e iniciativa privada e as recomendações de plantio baseadas na experiência, ao invés de em tendências de mercado, restringindo o plantio às variedades conhecidas. Tais ameaças devem ser amenizadas com políticas públicas voltadas a estimular a agricultura, trabalhando a cadeia integral da produção à comercialização, apostando na conscientização do consumidor e desonerando o custo Brasil. Essas medidas tornariam nossa fruticultura mais competitiva.

JE – Quais são as frutas produzidas no Brasil que têm despertado o paladar de consumidores em outros países?

Ferraz – As frutas tropicais despertam grande interesse dos consumidores mundiais, como nossas bananas, mamões e mangas, que não são produzidas nos principais países compradores, que estão no hemisfério norte ou em regiões de clima temperado, onde não é possível produzi-las. Devemos salientar também que nossas frutas nativas como açaí, cupuaçu, camu-camu, seriguela, cajá, umbu, pitanga, graviola, mangaba, entre tantas outras que ainda são pouco ou quase conhecidas no mercado mundial, devem ganhar força nos próximos anos, devido a suas características funcionais e nutricionais, impulsionando nosso país como grande fornecedor de frutas diferenciadas e únicas.

JE – Como as demandas socioambientais da atualidade se refletem na fruticultura brasileira e mundial?

Ferraz – O selo Fruta Sustentável criado pelo Ibraf é um reflexo dessa demanda, pois visa utilizar o recurso natural e humano de forma adequada. Vale lembrar que a fruticultura ajuda a preservar áreas verdes, inclusive a legislação vigente no país permite o cultivo frutíferas perenes em APPs (Áreas de Proteção Permanente). Além disso, a fruticultura brasileira está baseada, principalmente, em pequenas propriedades, nas quais a agricultura familiar é muito presente. Assim, o produtor, antes de todos, deve estar preocupado com o meio ambiente, uma vez que necessita dele para poder produzir.

JE – Em que consiste o selo Fruta Sustentável?

Ferraz – O Ibraf, que acompanha de forma sistemática os mercados interno e externo, está ciente da tendência de um consumo mais sustentável e, por isso criou este selo, cujo objetivo é garantir ao consumidor que a produção no campo respeite as normas de higiene, preservação do meio ambiente e condições de trabalho justas e seguras. A rastreabilidade também é garantida, pois há um controle rígido de toda a cadeia, desde a área de produção até o embalamento da fruta. Além disso, ele diferencia a qualidade da produção do fruticultor que opta por cumprir com os parâmetros das Boas Práticas Agrícolas, que é o pilar do selo, levando em conta protocolos de qualidade, as expectativas do mercado consumidor e as exigências legais, tais como GlobalGap, PIF (Produção Integrada de Frutas) e IN 54 (Instrução Normativa) – Boas Práticas Agrícolas – e protocolos das redes varejistas.

JE – Qual a importância dessa e de outras certificações para a agricultura nacional?

Ferraz – A importância do Fruta Sustentável é garantir a rastreabilidade, o uso adequado e seguro de insumos e defensivos a higiene na manipulação de alimentos, a segurança do trabalhador e a diminuição dos impactos ambientais, gerando benefícios ao produtor, como melhoria na gestão da propriedade, aumento da competitividade da fruta, acesso a canais diferenciados de comercialização e o marketing positivo das frutas produzidas de forma sustentável. Para o consumidor, a certificação visa garantir, principalmente, a segurança do alimento, através da oferta de uma fruta com origem conhecida e controlada, produzida num sistema agrícola que respeita o meio ambiente e os trabalhadores.

JE - E quanto à fruticultura orgânica, como estamos?

Ferraz – A fruticultura orgânica ainda é pouco representativa no país, com pouca informação estatística e, ainda assim, com tendência de crescimento, devido à preocupação do consumidor com a alimentação mais saudável. É um nicho de mercado que precisa ser melhor explorado e estudado no Brasil. Vale lembrar que a conversão para uma fruticultura orgânica leva tempo e demanda investimento em pesquisa, mas, na atualidade, acredito que uma fruticultura sustentável seja mais adequada às reais condições da nossa agricultura.


Fonte: Jornal do Entreposto
Publicada: 07/07/2010

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