Os segredos da produção brasileira de maçã
A equipe do Canal Rural Na Estrada desembarcou em Vacaria, no Rio Grande do Sul. A cidade é um dos maiores pólos produtores de maçã do Brasil. As macieiras estão saindo do inverno e ainda nem floresceram. Os primeiros brotos recém começam a aparecer.
A colheita vai acontecer mesmo só em fevereiro e março. Mas no pomar tem trabalho o ano inteiro. É preciso prender os galhos na posição certa, e espalhar o produto que estimula as macieiras a produzirem as primeiras frutas.
Também tem máquina pesada derrubando pomares que ainda produzem.
No pomar, o trator está arrancando macieiras que tinham mais de 30 anos de idade. A ideia é colocar no local plantas de uma variedade mais moderna, que produzam maças de maior qualidade.
Quem ordenou o replantio foi o dono dos pomares, Leandro Bortoluz, que também é pesquisador. Ele acredita que é uma boa ideia replantar um de cada quatro hectares que produzem maçã no Brasil. Tudo em nome do aumento de qualidade e da busca por frutas mais valiosas.
– Eu tenho pomares que atendo com produtividade de até cem toneladas por hectare. Agora a pergunta é a seguinte. De que categorias estamos produzindo? Quando estamos embalando de categoria 1 e 2. Porque categoria 3 e indústria não dá lucro para o produtor. Temos que tentar aumentar o perfil de categoria 1 e 2 que estamos colocando para dentro do pomar – explica o engenheiro agrônomo e produtor de maçãs.
Ainda em Vacaria, a equipe entrou na Schio, uma das maiores empresas do setor, responsável por processar quase 30% de todas as maçãs produzidas no Brasil.
No período após serem colhidas e irem para o supermercado, as maçãs ficam em uma espécie de hibernação, ao longo de meses, esperando a hora de serem processadas para chegar ao consumidor.
Quem recebe a equipe é Francisco Schio, um descendente de italianos que começou praticamente do zero, no setor de transportes e se tornou um dos gigantes do setor de maçãs. Ele é responsável por 75% das exportações brasileiras desta fruta.
O segredo da conservação das maçãs são as enormes geladeiras para onde as frutas vão depois que chegam do pomar. Elas Ficam a um grau de temperatura, numa atmosfera controlada. Os gases são perigosos. O processo é todo controlado por computadores. Injetam nitrogênio, retiram oxigênio. Também fazem o controle do gás carbônico que as maçãs expelem. Um balanço complicado, mas que garante a preservação do produto. A fruta fica em estado de dormência, em alguns casos por quase um ano inteiro.
A maçã sai do quase congelamento na hora da seleção. As grandes caixas de madeira vão sendo despejadas na água. A rede de máquinas, canais e funcionários especializados se encarrega de separar as maçãs, por tipo, tamanho e qualidade.
– Há canais que têm a fruta mais escura e mais clara. Cada canal deles recebe tantos frutos, que dá 350 quilos, ele é liberado. Lá no fundo tem dois robôs, que alimentam. Cada fruta no seu lugar – explica Francisco Schio.
A classificação é o único momento do processo de transporte e armazenagem e distribuição em que as frutas ficam à temperatura ambiente. Isso não dura mais do que poucas horas.
Não demora muito para as frutas estarem dentro das caixas de papelão, preparadas para viajar pelo Brasil. É neste ponto da logística da maçã que estão os maiores problemas. Francisco Schio calcula que de 80% a 90% dos caminhões enviados pelos compradores, para buscar a mercadoria, são de carroceria aberta, sem qualquer proteção contra o calor.
– Que diferença tem para o consumidor um caminhão de carga seca e um refrigerado? Aqui que começa o grande problema da maçã. Você trabalha tudo com resfriamento e daí você coloca num caminhão desses aí. Você quebra o ciclo todo! Vai pegar calor e a qualidade da maçã deteriora. Cai de 50 a 60% – declara o proprietário da Schio.
A equipe seguiu até Lages (SC), à beira da BR 116, onde aconteceu a reunião da Associação Brasileira de Produtores de Maçã, que acabou de terminar.
– A qualidade do serviço não é apropriada. A gente se preocupa com a qualidade do produto, da produção, mas a maior parte do transporte é feito em carga seca, onde as pessoas pisam em cima, para puxar corda, puxar lona. Não é uma coisa correta. Já desvaloriza o produto na saída – explica o presidente da associação, Pierre Pérès.
A relação de Fraiburgo com a maçã começou na década de 1970. Os primeiros pomares comerciais do Brasil foram plantados no município. Deste pólo, o produto é distribuído para todo o país e também para outros cantos do planeta.
Não pára de chegar maçã na gigantesca máquina que faz a classificação. A equipe chegou a uma das maiores unidades de Fraiburgo. O trabalho é intenso, e a linha de produção funciona 17 horas por dia.
As maçãs são armazenadas nas grandes câmaras frias. Ao todo, são mais de CEM espaços para armazenar as maçãs sob baixas temperaturas. Mas o produto não vai lá para dentro aleatoriamente. A qualidade dos lotes influencia diretamente o planejamento de armazenagem e logística.
Cada caixa que chega do pomar é analisada em laboratório. Os técnicos avaliam a aparência e as características físicas da fruta.
– Importante que os lotes sejam homogêneos e grau de maturação. Em função dessas características vai se determinar a longevidade da fruta na câmara – diz o gerente industrial da Divisão de Maçã da Fischer, Silvio Gmach.
A fruta é rastreada onde quer que esteja dentro da fábrica. É um código de barras em cada lote que garante o minuncioso acompanhamento.
– É possível saber, desde o campo, tudo que ocorreu lá. As ocorrências no desenvolvimento da fruta é refletido pelo código que está na caixa, que é o nosso lote. Nós podemos rastrear a fruta e tudo isso é um conjunto – explica o diretor da divisão da Fisher, Arival Pioli.
O controle de qualidade é intenso. Toda essa gigantesca estrutura serve para uma tarefa simples: classificar as maçãs por tipos e encontrar aquelas que não servem para o consumo.
Uma parte da seleção é feita visualmente, por funcionários. Uma pessoa revisa o que já foi revisado. Se ele perceber que estão passando frutas inadequadas, manda reavaliar todo o processo.
A tecnologia também ajuda. Um sistema de câmeras e computadores analisa a cor de cada uma das maçãs. É tudo muito rápido. Quanto mais vermelha, mais valorizada é a fruta. Cada uma vai caindo, sendo colocada no tanque certo, para formar um lote homogêneo. Pinças e correias fazem o serviço, automaticamente.
– O objetivo final é que o cliente possa comprar a mercadoria e ter a satisfação, sem riscos de comprar num determinado momento do ano. Que o nosso cliente possa comprar sem olhar a fruta. Que ele tenha confiança de que nós vamos ter regularidade o ano todo – defende Pioli.
Da seleção, as maçãs vão direto para o setor de embalagens. As empilhadeiras correm de um lado para outro preparando as cargas. Na expedição, um problema conhecido. As empresas que compram a maçã preferem contratar caminhões sem refrigeração. O produto está prestes a enfrentar centenas de quilômetros, debaixo de sol e de chuva.
A equipe saiu do sul do país e seguiu para a região Sudeste. A principal rota de transporte das maçãs é a BR 116. Entre Santa Catarina e Estados como São Paulo e Rio de Janeiro, o asfalto é de boa qualidade, mas o movimento é intenso.
Para quem vai no sentido inverso, das regiões produtoras rumo ao sul, a situação é um pouco diferente. 90% da exportação de maçã realizados por Francisco Schio acontecem pelo porto de Rio Grande. O empresário reclama do preço dos pedágios.
– Estamos exportando impostos, pedágios. Quando se fala em exportação, para nós é um desastre. Nós temos o porto de Rio Grande, que tem mais oferta de navios. Mas para chegar lá, são quase R$ 400 de pedágio. Então estamos exportando pedágio. Um frete que para Rio Grande custa R$ 2,3 mil, vai a Itajaí ou Imbituba a R$ 1,5 mil ou R$ 1,6 mil. E por que não se vai para lá? Porque são portos menores, mais congestionados e que recebe navios menores – diz Schio.
DISTRIBUIÇÃO NA CEASA DO RIO DE JANEIRO
A equipe do Canal Rural Na Estrada foi à Ceasa do Rio de Janeiro para conferir o resultado final de uma viagem de 1,2 mil quilômetros. Caixas amassadas sendo descarregadas foram flagradas. Para manusear a mercadoria no caminhão de carroceria aberta, é preciso pisar nas embalagens.
A viagem até a mesa do consumidor está prestes a terminar. O diretor de uma das maiores distribuidoras da cidade confirma a importância da maçã, na comparação com outras frutas.
– É o produto de maior valor agregado, portanto preenche em primeiro lugar a nossa venda – diz o diretor comercial da Benassi, Renato Melo.
Os caminhões enfileirados vão sendo carregados com produtos.
– A fruta chega aqui na segunda-feira, e a gente vende até o final de semana. Na segunda-feira a gente reabastece – explica Melo.
E assim vai acontecer também na próxima semana.E na semana seguinte e na seguinte. Os pomares podem estar vazios. A colheita pode estar marcada só para o início do ano que vem. Mas as engrenagens que fazem o produto estar nas mãos do consumidor 365 dias por ano, essas, não param nunca.
Fonte: Canal Rural
Data: 16/11/10
