Pesquisador da UEL busca apoio para pesquisas do cancro cítrico
O professor Galdino Andrade, do Departamento de Microbiologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), tem sólidas razões para crer que o produto que ele e seus alunos estão pesquisando, há oito anos, no Laboratório de Ecologia Microbiana, se transformará numa poderosa arma para o controle biológico do cancro cítrico.
Isso abre perspectivas econômicas invejáveis para o produto, visto que não existe nada semelhante no mundo – e no mundo inteiro, onde quer que haja produção comercial de citros, existe cancro cítrico, uma doença que é controlada penosamente, com produtos à base de cobre, de baixa eficiência e elevado perigo para o meio ambiente, e através de métodos caros como a erradicação de plantas. O Brasil é o maior produtor mundial de citros, faturando 1 bilhão de dólares por ano com a exportação de suco de laranja.
Confiante na capacidade do seu produto – que, nos testes feitos até agora, revelou mais que o dobro da eficiência do controle químico à base de cobre – o professor já requereu a patente do processo. Mas, para que a pesquisa avance e se confirme a viabilidade comercial do produto, o laboratório precisa de equipamentos e melhorias de infra-estrutura avaliadas em R$ 250 mil – e Andrade está procurando quem se disponha a fazer o investimento.
Daí seu interesse em dar divulgação à pesquisa pela imprensa, ao mesmo tempo em que faz contatos com indústrias do ramo de defensivos agrícolas, tentando sensibilizá-las. O dinheiro é necessário para aumentar a capacidade de produção e testar o desempenho do produto no campo. São necessários incubadores, rotavapores, bombas de vácuo e o aumento da capacidade das instalações elétricas do Laboratório de Ecologia Microbiana.
Nas mudas de citros plantadas na estufa anexa ao laboratório, o produto desenvolvido pelo professor Andrade e seus alunos – que fizeram até agora quatro dissertações de mestrado sobre diferentes etapas da pesquisa – já comprovou sua eficiência.
CANCRO CÍTRICO
O cancro cítrico é uma doença causada por uma bactéria chamada Xanthomonas axonopodis pv. citri (Xac). Essa bactéria provoca necrose em folhas, galhos e frutos; em infecções severas, leva a desfolhação, queda prematura de frutos e declínio generalizado da planta.
É praticamente impossível erradicar o cancro cítrico, pois ele se transmite pelo ar; para reduzir seus efeitos, são eliminadas árvores doentes e outras próximas a elas e aplicados produtos à base de cobre, que reduzem a população bacteriana na superfície das folhas. O tratamento, porém, perde eficácia diante da simples ocorrência de chuvas com ventos. Ademais, o uso contínuo desses produtos pode levar ao aparecimento de cepas de Xac resistentes e o acúmulo do metal no solo pode contaminar as plantas, o solo e o meio ambiente.
Estima-se que a eficiência do tratamento com cobre não ultrapasse os 40%. Mas o produto desenvolvido pelo professor Galdino – que é biológico, extraído de uma bactéria – revelou uma eficiência de 80 a 94%, números que o animam a continuar o trabalho, na certeza de que, em campo, também encontrará taxas excelentes.
HISTÓRICO
É curioso, para o leigo, ver o professor descrever como chegou ao produto biológico. Observando uma lesão de cancro cítrico, ele sabia que, naquele pequeno mundo, havia vários tipos de bactérias "disputando comida" com a causadora da lesão. "Havia uma competição ali", diz o professor. Ele então se pôs a imaginar um jeito de identificar as outras bactérias e, depois, dar-lhes um tratamento que as transformasse numa arma letal contra as necróticas. Nas palavras dele: "O grande gol desse negócio é aonde fomos buscar essas células, como fizemos isso e qual estratégia usamos para isolá-las". São coisas que ele não vai contar antes de obter a patente.
Mas Andrade não vê problema nenhum em admitir que já fez ao CNPq a mesma solicitação de dinheiro que faz agora a investidores privados para continuar a pesquisa, e teve seu pedido recusado. "Não estranhei porque sei como essas coisas funcionam. Também sou consultor do CNPq e de órgãos do mesmo gênero de outros países. O consultor pode pensar o que bem entender, pode achar que aquela pesquisa não é relevante, nunca se sabe quais foram os critérios dele".
Para o professor, sua experiência com pesquisa é aval suficiente a respeito de sua capacidade. Viveu sete anos fora do Brasil. Fez doutorado na Espanha e pós-doutorado na Inglaterra. Em seguida, esteve dois anos e meio nos Estados Unidos, como pesquisador convidado do Departamento de Agricultura do Governo.
Na UEL, é um dos 58 doutores que recebe a bolsa produtividade do CNPq – um adicional de incentivo à pesquisa. É consultor do Ministério da Ciência e Tecnologia, avalia projetos para a Capes, a Finep, o CNPq. Faz o mesmo para órgãos de estímulo à pesquisa da Argentina e da Colômbia. É avaliador de artigos para importantes editoras científicas estrangeiras. Já publicou 24 artigos em periódicos, apresentou inúmeros trabalhos em eventos, escreveu oito capítulos de livros e foi organizador de um livro, orientou 11 dissertações de mestrado e três teses de doutorado.
Tudo isso, mais a vivência própria de um pesquisador brasileiro, "que está acostumado a trabalhar com falta de tudo", conforme suas palavras, proporcionou a Galdino Andrade a oportunidade de "ir buscar a bactéria que controla o cancro cítrico no lugar certo, e ela estava exatamente onde eu pensei que poderia estar", segundo afirma.
E graças a isso Andrade acredita estar perto de poder ajudar o Brasil, fornecedor de metade da laranja consumida em forma de suco no mundo, segundo a FAO, a amenizar muito os prejuízos do cancro cítrico. Prejuízos elevadíssimos: entre 1997 e 2000, a erradicação de quase 4 milhões de árvores por causa da doença no País custou R$ 300 milhões aos produtores. Galdino Andrade quer continuar seu trabalho.
CONTATOS
Professor Galdino Andrade
Laboratório de Ecologia Microbiana
Universidade Estadual de Londrina
Telefone: (43) 3371-4791
Fonte: Agrosoft Brasil
Publicada: 24/04/08
