Primeiro passo
“Formadas em viveiros ou em biofábricas, mudas de qualidade e procedência comprovada garantem o investimento na formação dos pomares.”
A qualidade da muda (ou semente) determina o sucesso ou o fracasso da atividade agrícola. Na fruticultura não é diferente, a muda é um insumo básico, daí a importância da utilização de material de boa procedência, visando assegurar a sanidade do pomar. Afinal, não se pode esquecer a importância do segmento de frutas frescas para o País, um negócio de 40 milhões de toneladas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A biotecnologia e a legislação têm sido grandes aliadas do setor, contribuindo para minimizar o impacto de pragas e doenças, além de melhorar a produtividade.
Nesse cenário, São Paulo está bastante avançado, principalmente, na certificação de mudas cítricas. O movimento, iniciado em 1994 como programa voluntário, ganhou impulso a partir de 2000, quando a nova legislação paulista estabeleceu critério progressivo para adoção de proteção com tela para sementeiras e viveiros, ficando, a partir de janeiro de 2003, proibida a formação de porta-enxerto e produção de mudas de citros em viveiros de campo.
Segundo o diretor da Defesa Vegetal de São Paulo, da Coordenadoria de Defesa Agropecuária (CDA), Mário Sérgio Tomazela, o sistema de produção de mudas com base na certificação, estabelecido pela lei paulista, visa monitorar e garantir a origem, além de comprovar a sanidade das mudas cítricas produzidas no Estado. “Com a certificação, é possível assegurar a produção de mudas e materiais propagativos de qualidade para atender à demanda do setor produtivo”, explica, lembrando que um dos gargalos da produção de mudas cítricas é a oferta de material de propagação, em quantidade suficiente e com garantia de sanidade. “Problemas fitossanitários podem pôr em risco a produção citrícola, até mesmo restringir as vendas externas”, alerta.
Tomazela considera bastante positivos os resultados da rastreabilidade da produção de mudas cítricas em São Paulo e destaca como vantagem a oferta de material livre das principais doenças dos cítricos, como CVC, greening e morte súbita; padronização das mudas, segundo as exigências do mercado e da lei federal; eficiência na fiscalização; obrigatoriedade de diagnóstico fitossanitário, por amostragem, de modo a garantir a qualidade da muda tanto para o produtor como para o comprador; e maior eficiência na fiscalização, entre outros benefícios.
O RISCO DA TRANSFERÊNCIA DE MUDAS CÍTRICAS
Mesmo com regulamentação federal sobre produção, comércio de inspeção de mudas, Sérgio Alves de Carvalho, pesquisador do Centro Apta Citros “Sylvio Moreira”, do IAC (Instituto Agronômico), de Campinas (SP) afirma que o Brasil não dispõe de um programa de abrangência nacional, que assegure a sanidade do material vegetativo utilizado na formação dos pomares de citros. Ele destaca o programa paulista, mas considera que a extensão territorial do País e a quantidade de viveiros dificultam a realização de um programa de certificação e o controle rigoroso do trânsito de sementes, borbulhas e mudas. “Devem ser estimuladas ações visando à efetivação em todos os Estados da Federação, de programas que permitam maior controle de produção e trânsito de material de propagação”, sugere.
De acordo com o pesquisador Walter dos Santos Soares Filho, especialista em melhoramento de plantas da Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical, por ser responsável pela maior produção de citros do País, São Paulo também tem os maiores problemas, razão pela qual a transferência de mudas de citros pode introduzir material de origem duvidosa e causar problemas que não existem na região, o que, segundo ele, é válido para qualquer tipo de cultura. “São Paulo tem uma série de problemas, como greening, que não existe no Nordeste, e o trânsito de mudas sem um controle sanitário adequado pode implicar no possível ingresso dessa doença na região”, aponta Soares Filho. “Isso para não mencionar a disseminação de cancro cítrico, leprose, amarelinho, entre outras doenças que podem contaminar áreas onde há focos limitados ou onde não há a ocorrência das mesmas no Nordeste”, argumenta. “Temos de evitar que essas doenças se espalhem.”
Segundo Soares Filho, pelo fato de o Nordeste oferecer mão-de-obra barata, quando comparado com o Sudeste, além da possibilidade de irrigação em perímetros irrigados, como no eixo Petrolina– Juazeiro, tem havido um grande interesse de grupos de outros Estados, principalmente de São Paulo, em se deslocarem para a região, para explorar a citricultura. “A atenção com doenças, portanto, deve ser redobrada, afinal, temos um grande potencial de crescimento, que pode ser comprometido, com implicações sérias com relação a emprego e renda”, alerta.
A Bahia já tem também uma biofábrica de borbulhas cítricas, iniciativa do Programa Bahiacitros, parceria entre a Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical , a EBDA e a Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). A unidade foi inaugurada no ano passado, no município de Conceição do Almeida, e visa fornecer material genético de qualidade e resistente a pragas.
PROCEDÊNCIA DUVIDOSA
O pesquisador da Embrapa, Soares Filho, especialista em melhoramento de plantas, com uma linha de pesquisa voltada para citros e umbucajazeiro, afirma ainda que a muda – não só a de citros, mas a de qualquer cultura, assim como a semente – é a pedra angular do agronegócio. “Se considerarmos o custo da muda em relação a todo o investimento da atividade, ele é irrisório. Entretanto, a muda qualidade duvidosa pode fazer com que todo o investimento seja perdido”, argumenta e acrescenta que apesar dessa lógica, as pessoas ainda não entenderam a gravidade da situação. “O governo está agindo, mas falta uma fiscalização mais rigorosa, visando evitar mudas de outras regiões, que podem comprometer o agronegócio.”
“Mudas cítricas, cultivadas em ambiente protegido, têm garantia fitossanitária, desde que o porta- enxerto e a copa tenham boa procedência genética”, afirma e acrescenta que a Embrapa incentiva o uso dessa tecnologia, que já está bem estabelecida em São Paulo. “Sergipe está bastante preocupado com essa direção e a Bahia também tem manifestado o interesse de seguir essa linha, até porque esses dois Estados são os maiores produtores de citros do Nordeste.”
A ERA DAS BIOFÁBRICAS
Outro avanço para o setor de produção de mudas, especialmente de banana e abacaxi, são as biofábricas. Uma delas, resultante da parceria entre a Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical, a EBDA (Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola) e a Campo Biotecnologia Vegetal, foi criada com o objetivo de fomentar a fruticultura nacional, por meio da produção de materiais propagativos de alta qualidade genética e fitossanitária, utilizando modernas tecnologias.
“A Campo multiplica e comercializa os materiais desenvolvidos pela Embrapa e, em troca, paga royalties”, conta o gerente da unidade da Campo, Geraldo Fernandes. Também produz mudas para a Embrapa montar os campos experimentais de pesquisas para o desenvolvimento de novos cultivares de banana e abacaxi resistentes às principais doenças dessas culturas. “De 1998 até agosto deste ano, distribuímos mais de 7,5 milhões de mudas das duas frutas”, contabiliza. A unidade tem capacidade para multiplicar de 800 mil a 1,2 milhão de mudas por ano, sendo 80% de bananas. A matriz da empresa, em Paracatu (MG), pode produzir até 2 milhões de mudas ao ano, e a unidade de aclimatação, em Manaus (AM), possui capacidade para aclimatar 5 milhões de mudas/ano, praticamente 100% de banana. Nesse caso, o foco principal é a resistência à sigatoka-negra, de acordo com Fernandes.
O gerente da Campo afirma que a produção de mudas de abacaxi e banana in vitro apresenta as seguintes vantagens: evita, em parte, a disseminação de algumas doenças e pragas; facilita o transporte a longa distância e o plantio de grandes quantidades de mudas por jornada de trabalho, devido ao grande porte e à padronização; produz mais em comparação às mudas de propagação convencional, por ser resultante de rigoroso processo de seleção e clonagem das plantas matrizes; possui garantia da qualidade genética; permite maior uniformidade dos tratos culturais em razão da padronização, facilitando a concentração da colheita em épocas mais favoráveis. “Além disso, a muda micropropagada produz 30% a mais do que a convencional”, destaca e aponta outro benefício: “Reduz o impacto em relação ao ambiente e à saúde dos trabalhadores rurais e do consumidor, graças à menor utilização de agrotóxicos.”
De acordo com Fernandes, a micropropagação de plantas em biofábricas segue as seguintes etapas: coleta de matrizes no campo, preparo do explante (mudas in vitro), incubação no meio de cultura sem isolamento, comprovação de assepsia, indexação (exame de amostras de folhas para a verificação de viroses), proliferação de brotos, isolamento e enraizamento e transferência para as estufas de aclimatação.
NO VALE DO RIBEIRA
São Paulo também está avançando na produção de mudas de banana, por meio do Biovale Laboratório de Mudas, do Pólo Regional do Vale do Ribeiro, da Apta (Agência Paulista do Agronegócio), localizado em Pariqüera-Açu. Segundo o pesquisador do laboratório, Luiz Alberto Saes, a legislação incentiva a melhoria da qualidade da muda de banana comercializada. “Embora nem todos tenham aderido, gradativamente, os produtores estão adotando tecnologia, e a tendência, num futuro não muito distante, é que todos utilizem mudas produzidas em laboratório”, prevê. “O exemplo do bom resultado é uma boa referência e tem sido seguido.”
A produção de mudas de banana do Biovale atende à demanda regional. A demanda, na região, é pelas variedades nanica e prata. O laboratório tem capacidade de produzir de 150 a 200 mil mudas por ano, de acordo com a demanda. “Temos um banco de germoplasma que faz, inclusive, a multiplicação in vitro de material selecionado pelo bananicultor”, explica. “Quem tem reformado o bananal com mudas produzidas na biofábrica, tem melhorado a produtividade, além de enfrentar menos problemas com pragas, principalmente.”
Saes aponta como vantagens do uso de mudas produzidas in vitro o fato de ter um material selecionado, de alta produtividade, mais uniforme e resistente às doenças. No entanto, ele esclarece que mesmo um material de boa procedência exige uma multiplicação eficiente e cuidadosa, na biofábrica, para evitar problemas de mutação genética dos indivíduos.
CONVENCIONAIS X CERTIFICADAS
O pesquisador da área de melhoramento genético de banana da Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical, Sebastião Oliveira e Silva, não descarta a possibilidade de se produzir bananas a partir de mudas convencionais, mas garante que não é a melhor forma. “A sugestão, sempre, é utilizar mudas micropropagadas. Tecnicamente, é isso que deveria ser feito”, enfatiza. “Mudas de banana produzidas em biofábricas são livre de doenças, à exceção de vírus, quando não se faz a indexação, que é um processo que assegura a qualidade das mudas.”
Porém, se o produtor tiver que utilizar mudas, ele recomenda que sejam procedentes do próprio bananal. Para isso, Silva orienta no sentido de selecionar áreas específicas para essa finalidade, visando evitar o trânsito de doenças (nematóides, mal-do-panamá e moko, principalmente), e fazer a toalete necessária.
“Se for utilizar mudas de bananal de outra propriedade, deve-se fazer a toalete nas mudas, no local da procedência, ou seja, tirar toda a raiz do rizoma, removendo as partes com manchas escuras”, ensina. “Isso, de certa forma, ajuda na prevenção de doenças.” Segundo Silva, outra opção é fazer o tratamento das mudas oriundas de bananais com produtos específicos, de acordo com receituário fornecido por um engenheiro agrônomo.
***
Matéria retirada da Revista Frutas e Derivados
Site: http://www.ibraf.org.br/revista/revista.asp
Data Edição: 30/11/07
Fonte: Revista Frutas e Derivados
