Produção de uvas sem sementes "BRS CLARA"
A 'BRS Clara' (Figura 1) foi lançada em 2003, pela Embrapa Uva e Vinho, juntamente com as cultivares BRS Morena e BRS Linda, todas sem sementes, adaptadas às regiões produtoras do país e com qualidade para competir no mercado externo. A BRS Clara, obtida do cruzamento entre CNPUV 154-147 x Centennial Seedless, é uma cultivar produtiva (cerca de 30 t/ha/ano), que apresenta cacho de tamanho médio a grande (500 a 600 g); baga elíptica, verde-amarelada, chegando a amarela quando exposta ao sol; polpa incolor e firme; sabor moscatel leve e agradável; e traço de semente grande, porém imperceptível à mastigação. Apresenta um ciclo produtivo mais curto que a cultivar Itália, o que favorece o cultivo em regiões de clima mais frio, já que permite a comercialização no período de pouca disponibilidade de uva nestes mercados.
Apresenta um elevado potencial glucométrico, chegando a mais de 20 ºBrix, porém o ponto de colheita recomendável é quando atinge 18 a 19 ºBrix, quando a relação açúcar/acidez (SST/ATT) situa-se em torno de 24. Apresenta boa conservação na planta, o que favorece o retardamento da colheita, se houver interesse. Também comporta-se bem em relação ao rachamento de bagas causado pela ocorrência de chuvas durante o período de maturação da uva.
Logo após o lançamento, a 'BRS Clara' foi introduzida em pequenas áreas em vários estados brasileiros (Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco). Em função de suas características de sabor e de crocância, esta uva é muito bem aceita pelos consumidores, porém os viticultores têm encontrado dificuldades na produção, o que tem provocado pequena ampliação da área de cultivo.
Com este trabalho, pretende-se fornecer algumas informações que facilitem o manejo da cultivar BRS Clara e permitam obter produções em maior quantidade e melhor qualidade.
RECOMENDAÇÕES DE MANEJO
As primeiras recomendações de manejo para a cultivar 'BRS Clara' foram feitas a partir de experimentos e observações realizados na Estação Experimental de Viticultura Tropical, em Jales, SP, e vêm sendo aprimoradas a cada ano com base em observações feitas nas propriedades dos viticultores, nas regiões onde esta cultivar está sendo plantada. A seguir são apresentadas as principais recomendações de manejo, tanto das plantas quanto dos cachos, necessárias para assegurar a produtividade e a qualidade da uva da cultivar BRS Clara.
Formação da planta
Em função do vigor da cultivar, não são recomendados espaçamentos menores que 2,5 m x 2,0 m (2.000 plantas/ha) para evitar o excesso de sombreamento e a falta de aeração, que podem dificultar o manejo fitossanitário. Os porta-enxertos mais usados são o ‘IAC 572’, o ‘IAC 766’, o ‘Paulsen 1103’ e o ‘420’. Entretanto, é preciso adaptar as condições de nutrição e o manejo da copa para cada caso, pois o ritmo de crescimento é diferente em cada um destes porta-enxertos.
Para a obtenção de produtividade elevada (30 t/ha/ano) com qualidade, recomenda-se a formação da copa com uma média de 3 varas/m2, deixando-se dois brotos por vara e um cacho por broto. Na primeira poda, em plantas sem a plena capacidade produtiva, é recomendável limitar a carga a uma média de 1 a 1,5 brotações por vara.
A cultivar BRS Clara é bastante fértil, porém recomenda-se realizar a poda de produção deixando-se varas com cerca de oito gemas, em função do maior tamanho e melhor conformação dos cachos produzidos nestas gemas.
Manejo do cacho
A cultivar BRS Clara normalmente apresenta cachos com boa conformação, não necessitando de raleio de bagas. Todavia, como seu tamanho natural é relativamente pequeno, é interessante o uso de técnicas para promover o aumento do tamanho das bagas.
A utilização de reguladores de crescimento para aumento do tamanho das bagas não produz efeitos relevantes, entretanto, nas condições da Serra Gaúcha, foram obtidas bagas com diâmetro superior a 24 mm (Figura 2). Em regiões de clima quente, em função do rápido desenvolvimento das bagas, o diâmetro das bagas normalmente é bem menor (de 17 a 19 mm).
Vários trabalhos já foram conduzidos buscando-se o aumento no diâmetro das bagas da 'BRS Clara', testando-se vários reguladores, dosagens e épocas de aplicação. Pelos resultados, acredita-se que o uso de duas aplicações de 50 ppm de ácido giberélico, sendo a primeira aplicação realizada na fase de chumbinho (bagas com 5 mm), e a segunda aplicação realizada de 10 a 15 dias após, permitem a obtenção de bons resultados. Em algumas regiões, uma única aplicação de ácido giberélico de 60 ppm, na fase de chumbinho, tem sido suficiente para o aumento no tamanho das bagas.
Outros reguladores de crescimento, como o forchlorofenuron (CPPU) e o thidiazuron (TDZ), têm sido avaliados pelas instituições de pesquisa e produzido resultados bastante interessantes principalmente para aumento do diâmetro das bagas, porém não devem ser utilizados pelos produtores por não terem registro de uso para a videira.
A aplicação de concentrações de ácido giberélico muito elevadas pode causar o engrossamento do engaço e, consequentemente, aumento na degrana das bagas. Além disso, concentrações elevadas de ácido giberélico retardam o amadurecimento das bagas.
A aplicação do ácido giberélico pode ser por pulverização localizada ou por imersão dos cachos, o importante é que ocorra o contato do ácido giberélico em todas as bagas do cacho, já que o seu efeito é localizado. Para facilitar o molhamento das bagas, recomenda-se o uso de um surfactante, comumente conhecido por espalhante adesivo.
Espalhantes organossiliconados apresentam alto poder de quebra da tensão superficial da água. Quando aplicados em alto volume (imersão dos cachos), normalmente provocam escorrimento da calda e o consequente aumento da concentração na extremidade da baga, o que proporciona o aparecimento de manchas escuras por ocasião da maturação. Desta forma o produtor deve estar seguro quanto ao produto a ser utilizado e seguir a recomendação de um engenheiro agrônomo.
Controle da produção
Como a 'BRS Clara' é uma cultivar muito produtiva, é importante o controle do número de cachos carga para garantir a qualidade das uvas. Produções em excesso (acima de 30 t/ha) podem causar redução no tamanho das bagas, redução no teor de açúcar, perda da crocância da polpa, perdas no sabor e redução na produção da safra seguinte. Em áreas com produções estimadas acima de 40 t/ha, observou-se o aparecimento de manchas areoladas, da base para o ápice da baga, reduzindo o valor comercial ou inviabilizando sua comercialização.
Para definição da quantidade de cachos a ser deixada em cada planta, o produtor pode calcular estimando um peso médio de 800 g para cada cacho. Nesse caso, para a obtenção de 30 t/ha, seriam necessários cerca de 37.500 cachos, o que em uma população de 2.000 plantas/ha corresponde a cerca de 19 cachos por planta.
O tamanho do cacho pode variar de ano para ano, por isso é importante que o produtor tenha um registro do tamanho médio dos cachos, um pouco antes ou durante a floração e o peso médio dos cachos na colheita, em todas as safras. Esse registro é importante, pois permite calcular com precisão a quantidade de carga já na época da floração, o que facilita o controle da carga.
A eliminação dos cachos em excesso deve ser feita o mais cedo possível para não comprometer a qualidade da uva, no máximo no momento da aplicação do ácido giberélico. Devem ser eliminados, primeiramente, os cachos pequenos ou que tenham sintomas do ataque de pragas ou doenças, depois deve-se dar preferência pela eliminação daqueles que estejam em brotações com dois cachos, até atingir o número desejado por planta.
Controle fitossanitário
A 'BRS Clara' é sensível às principais doenças da videira (míldio, oídio e antracnose) e, por isso, devem ser feitos os tratamentos necessários, de preferência preventivos. No caso do cultivo sob cobertura plástica, em alguns anos, tem sido observado ataque intenso de Botritys cinerea e de tripes antes e durante a floração, devendo-se tomar os devidos cuidados.
O uso da cobertura plástica reduz a ocorrência do míldio, da antracnose e das podridões dos cachos, porém pode aumentar a incidência de oídio e de ácaros. Também é importante salientar que, em ambiente protegido, os comportamentos da planta, dos patógenos e dos defensivos são alterados, e as informações a esse respeito são ainda bastante escassas.
Colheita
Para obtenção do máximo de sabor, a 'BRS Clara' deve ser colhida quando atinge de 17 a 19 ºBrix, o que corresponde a uma relação açúcar/acidez (SST/ATT) em torno de 24. Porém, apresenta boa conservação na planta, o que favorece o retardamento da colheita, se houver interesse.
Fonte: TodaFruta
Publicada: 03/01/2011
