Vinicultores apostam em altas nas vendas
Munidos de uma safra de uva que deve superar as expectativas neste ano, os vinicultores artesanais do Grande ABC se preparam para o momento de maior consumo, com a chegada do inverno nos próximos meses, buscando acelerar a produção.
O presidente da UVA (União dos Vinicultores Artesanais), Marco Antônio Silva, está otimista quanto às remessas da fruta do Sul, apesar do clima chuvoso que prejudicou temporariamente as colheita recentemente.
Ele diz que o negócio dos 117 produtores associados na região e Capital será incrementado em 2011. No ano passado, a produção regional caiu de 90 mil litros em 2009 para 75 mil litros - baixa de 16,6%.
O volume é quase uma sombra no comparativo brasileiro. Mas não dá para se comparar. Aqui são fermentados de forma artesanal e não como a produção em massa de regiões como o Rio Grande do Sul.
Em 2010, os vinicultores daquele Estado - detentor de 90% da fabricação do País - fermentou 247,285 milhões de litros de vinho. E isso porque o clima não ajudou. As constantes tempestades foram responsáveis por reduzir 2,24% a produção em relação com 2009. Os dados são da Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho). "O negócio na região é muito familiar", justifica.
A UVA já realizou, inclusive, um simpósio de degustação regional, em dezembro, junto ao Paço de São Bernardo - cidade que responde por cerca de 70 vinicultores. Novo evento do porte ainda está em estudos pelas entidades.
LEGISLAÇÃO
Um item considerado perigoso pelos produtores familiares, geralmente com porte menor, são os impostos que incidem sobre os vinhos. O proprietário da Adega Rainha, de Santo André, Luiz Carlos dos Reis, foi enfático ao criticar o governo. "Querem acabar com o vinho artesanal, porque agora é obrigado a engarrafar", pontua. "Nossos produtos serão mais caros do que os importados."
Ele conta que a regulamentação de todo o vinho produzido no País - por meio de selo fiscal que já foi implementado - irá atrapalhar quem pensa em manter a tradição. Tal tributação já engloba a cachaça e os cigarros, por exemplo. Com isso, toda o item precisa ser engarrafado e "selado", antes de compor as prateleiras.
Reis destaca que produzia 100 litros nos barris de carvalho. Agora, terá de envasar para comercializar. A reclamação é de que a medida teria objetivo de computar e tributar todas as garrafas no mercado. "O artesanal paga IPI Imposto Sobre Produtos Industrializados) parcial e o governo quis cortar isso", diz.
Carga tributária inibe consumo de bebida nacional
A maior polêmica tanto para o mercado interno quanto de logística se pauta sobre os selos fiscais da Receita Federal. Teoricamente, toda a produção vinícola do Brasil e cada garrafa internacional precisaria ser registrada com o selo para ser comercializada. A medida entrou em vigor em janeiro e é fruto de lamentos para produtores e importadores.
"Eu vendo garrafa nacional por R$ 9, mas o chilena entra por R$ 8 a R$ 12, e são vinhos mais famosos do que o brasileiro", argumenta Reis. Ele conta que a incidência de todos os tributos encarecerá ainda mais o produto, tornando o interesse do consumidor quase inexistente.
Silva aponta que uma lei menos rígida, com fiscalização apenas da vigilância sanitária, oxigenaria os produtores menores. "O vinho não estraga, no máximo vira vinagre", brinca Reis. Ele diz que, apesar de atrapalhar a contrapartida, será menor sonegação e contrabando de garrafas no mercado negro. "O único erro está na nossa taxação radical."
Já Bertolini, da Ibravin, descarta prejuízos para a indústria nacional e mesmo no volume de importações. As boas projeções para a safra de uvas e o mercado externo de olho no potencial brasileiro deixara as especulações do selo em segundo plano.
"Objetivo é justamente regulamentar o mercado, pois há muito contrabando de vinhos", afirma. Ele diz que o selo "é apenas uma questão fiscal", tal como ocorre com uma série de outros produtos comercializados no País.
Produto importado ganha destaque
O volume de vinhos estrangeiros nas mesas brasileiras se fez mais presente em 2010. Em seu balanço anual, a Ibravin, com bases em levantamentos do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, destaca que o número de compras estrangeiras subiu 27% no ano, em comparação a 2009. O percentual equivale a 75,3 milhões de litros, vindos de 30 países. Chile, Argentina, Itália e Portugal concentram 90% daquilo que o Brasil compra de fora.
Na contramão, o mercado interno exportou US$ 6,7 milhões até dezembro, contra US$ 10,1 milhões de 2009.
Mas não foi apenas o aumento de consumo que estimulou as importações. O gerente de promoção e marketing da Ibravin, Diego Bertolini, sustenta que o desfavorecimento do câmbio - com dólar fraco em relação ao real, sentido durante o ano passado - para as indústrias do País impulsionou a vinda desses itens.
Outra questão identificada pela entidade são acordos do Mercosul (Mercado Comum do Sul), que beneficiam as exportações entre países vizinhos, por meio de subsídios fiscais. Mas, outra vez, os selos fiscais da Receita Federal são a principal razão para que esse percentual elevado, considerado atípico pelo instituto, entrasse no País.
"Como só se pode vender produtos com o selo hoje, os importadores aproveitaram o último ano para fazerem grandes encomendas", explica Bertolini, ao revelar que a medida vigora desde o início do ano. A tese ganha substância quando se nota as compras em janeiro por importadoras. Houve queda no ramo em 20% ante janeiro de 2010.
A coordenadora Angélica Marchi diz que percebeu outro pilar que sustentou o ramo: novas importadoras no mercado, que aproveitaram para estocar mercadorias. "Mas isso não significa que o consumo per capita subiu. Não passa hoje de meio litro, para os vinhos finos", garante ela, que irá apostar nos espumantes em 2011, já que ganharam a preferência dos degustadores brasileiros.
Há cada vez mais interessados na arte dos sommelières
O quadro atrativo para consumidores e produtores de vinho tem como consequência o aumento de interesse por um profissão cada vez mais presente nos locais de consumo, a de sommelière - especialistas na bebida.
As informações disponíveis nas associações relacionadas a essa mão de obra são difusas. A ABS (Associação Brasileira de Sommeliers) calcula que verdadeiros profissionais do ramo, certificados no mercado externo, são apenas 29, no Brasil.
A especialista da Enoteca Fasano Ana Paula Oliveira afirma que o mercado está expansivo para novos sommelières. "A procura não existe de um ano para cá. Não é novidade", diz ela, que emenda que o aquecimento ocorre há pelo menos cinco anos.
O número de escolas de olho nesse filão já pipocam por diversas regiões, inclusive no Grande ABC. O Restaurante Escola, iniciativa do Sehal (Sindicato das Empresas de Hospedagem e Alimentação do Grande ABC) junto à Prefeitura de São Bernardo terá 20 vagas no segundo semestre dedicados à especialização nos vinhos. A carga horária será de 200 horas.
Além do mais, ela destaca que há cursos de gradução sendo lançados em São Paulo.
PERFIL
Se antes o perfil dos interessados na profissão eram amantes do bom vinho, hoje profissionais que já atuam no mercado alimentício são os novos empenhados em aprender novas técnicas, a fim de utilizarem esse knowhow em locais como restaurantes e supermercados.
"Mas não há tanto glamour como pensam. Esse profissional tem de fazer de tudo: empilhar caixas, mexer com logística e estudar constantemente", diz Ana Paula, em referência às tendências que aportam no País todos os anos.
Fonte: Diário do Grande ABC
Publicada: 21/03/2011
