Apex vai dar força a médio exportador
Os desafios são grandes, mas o caminho é continuar trabalhando com novos exportadores e dar um passo a mais, apoiando quem quer expandir suas vendas para novos mercados.
Novo presidente da agência de promoção, Alessandro Teixeira, quer ainda redefinir a política de atuação do Brasil no Exterior.
Depois de dois anos trabalhando em políticas industriais na Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), o economista Alessandro Teixeira assumiu o cargo de presidente da Agência de Promoção às Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), substituindo o empresário Juan Quirós, que ficou no cargo por pouco mais de quatro anos.
Com forte atuação no mercado exterior, já que é doutor em Competitividade Tecnológica e Industrial, com ênfase em Comércio Exterior e foi consultor britânico na área de novos mercados e da Academia Internacional de Ciência, em Paris, Teixeira diz que vai redefinir sua política de atuação no comércio internacional e incluir ações de apoio a exportadores de médio porte, com atuação já consolidada no mercado externo.
A Apex, que tem como objetivo estimular as vendas externas a partir de ações de promoção comercial, aumentando a visibilidade de produtos e serviços brasileiros no mercado mundial, além de criar instrumentos que agilizem os canais de distribuição para os exportadores em mercados estratégicos, foi responsável por grande parte do sucesso das exportações nos últimos quatros anos. A meta do governo federal é fechar este ano com um crescimento de 11% no valor total comercializado para outros países, chegando a US$ 152 milhões.
Os desafios são grandes, mas Teixeira acredita que o caminho é continuar trabalhando com novos exportadores e dar um passo a mais, apoiando quem quer expandir suas vendas para novos mercados. "Apesar de alguns empecilhos nesse processo, o nosso trabalho é dirigido para o fortalecimento do comércio exterior", reforça.
Nesta entrevista, o novo presidente da Apex, que assumiu o cargo no último mês de maio, fala dos desafios que tem pela frente e das metas que pretende atingir.
Agência Anhangüera de Notícias (AAN) — O sr. já trabalhou na Apex e com as políticas de incentivo às exportações. Como foi esse trabalho?
Alessandro Teixeira — Eu já tinha contato com Apex porque fui diretor executivo da Agência por quase dois anos. Sai para construir a ABDI, desde o início, com a aprovação da lei. Assim como quando vim para Apex, justamente o meu primeiro trabalho foi aprovar a lei de criação da Apex no Congresso. Depois estruturei a agência e acabei saindo. Fiz a mesma coisa na ABDI.
E nesse processo, o que lhe deu mais experiência para assumir a presidência da Apex?
Eu construí a Agência. Essa experiência é muito grande, pois a Apex era um departamento do Sebrae nacional. E quando a gente cria uma agência nova, tem uma estrutura nova, tem que trazer pessoas de fora, porque vieram poucas pessoas do Sebrae e é preciso dar uma diretriz. Uma coisa é ser uma diretoria do Sebrae e outra é ser uma agência autônoma. Então tem que construir e renovar a relação com o setor privado. Da mesma forma é administrar a Apex, só que em outra dimensão. Minha saída da Apex para a ABDI foi a mesma coisa.
O sr. passou por todo esse processo de novo?
Passei, só que numa dimensão diferente. Uma tem política muito mais focada e outra com dimensão bem mais macro, com a interlocução mais ampla com o setor privado e com o governo. Uma política industrial ultrapassa toda uma agência, pois vários ministérios fazem política industrial, desde o Ministério da Saúde, até o próprio Ministério do Desenvolvimento.
E agora na Apex, quais são os seus projetos?
Basicamente os meus projetos na Apex estão focados em continuar o trabalho realizado, porque o trabalho é do presidente Lula (Luiz Inácio Lula da Silva - PT) e o governo não teve mudança. Portanto, é aprofundar as ações que a Apex já vinha fazendo, auxiliar a qualificar as exportações brasileiras no sentido de agregar valor. Fortalecer a estrutura, principalmente das pequenas e médias empresas para que tenham melhor capacidade de exportação. Ampliar e continuar diversificando os mercados por meio da melhoria e do aprofundamento da inteligência comercial.
A inteligência comercial foi uma coisa que funcionou muito bem, sendo um dos primeiros projetos da Apex e que deu um impulso muito grande para as exportações?
Na verdade, o que deu impulso às exportações foi o aumento não só do volume de recursos colocado pelo governo, mas também a diversificação de mercados. A parte de inteligência comercial começou há dois anos e tem contribuído bastante.
E a diversificação dos mercados também ocorreu por causa da inauguração dos Centros de Distribuição?
A diversificação de mercados ocorreu com as missões empresariais em vários países e as visitas que o presidente da República fez em novos mercados, como os dos continentes africano e asiático. Tudo isso propiciou um processo de diversificação.
Ou seja, é resultado de esforços pessoais?
São esforços de uma política. Quando o presidente viaja é um esforço político. É uma visão estratégica da política externa brasileira. Quando nós aumentamos as exportações e a América Latina passa a ser um dos principais blocos comerciais do mundo, isso não é pessoal, é esforço direcionado, planejado e que teve um resultado excelente. Quando a Argentina fortalece as compras no Brasil é porque temos uma estratégia na política externa de fortalecimento do Mercosul. Portanto, o fortalecimento do bloco latino-americano, que ultrapassou o bloco europeu, é uma política do governo federal que teve resultados excelentes. Tivemos um excepcional desempenho das exportações. E isso não é graças a Deus, somente. É graças à realização de um trabalho.
Quais os mercados que o sr. visualiza que precisam ser seduzidos pelo Brasil?
Não diria os mercados que precisam. Quer dizer, todo mercado, se tivermos oportunidade, precisa ser trabalhado, mas a geografia econômica mundial não muda. Os Estados Unidos continua sendo um grande mercado, assim como a União Européia e os países africanos. As discussões precisam ser feitas para melhorar e estruturar a inteligência comercial para saber quando e como podemos aproveitar dos mercados. É o que países como a China fazem. É nesse sentido que é preciso a estruturação e fortalecimento da área de inteligência comercial, entendendo ela não só como estudo de prospecção, mas canal de distribuição, encurtando distância entre o consumidor final e os produtores brasileiros, ajudando a agregar valor e adequação aos produtos, coisas fundamentais para que a gente consiga ganhar mercado. Ou seja, você adequar o teu produto e levar o produto certo para o mercado certo é o que chamamos de inteligência comercial. Estudo e prospecção são uma parte da inteligência comercial. É digamos o ponto de base do trabalho, mas tem uma série de outras coisas que correspondem à inteligência comercial, que é pegar as informações, saber trabalhar para que seu resultado seja maximizado.
Em relação ao câmbio, existe algum temor dos empresários em continuar exportando ou não?
Eu não posso responder pela classe empresarial. Eu diria que hoje em dia, os empresários que estão consolidados no mercado internacional não podem ter temor de estar no mercado externo. Mesmo porque é a única solução que eles têm. Quanto à questão cambial, é extremamente importante ter uma competitividade, que não seja cambial, mesmo porque o câmbio é flutuante, não só no Brasil, mas em vários países. Portanto, a competitividade tem que ser colocada na produção, eficiência produtiva e da estrutura econômica. O que o governo vem trabalhando é no sentido de ajustar a infra-estrutura econômica para que a gente possa ter cada vez mais eficiência no sistema produtivo brasileiro e não na eficiência cambial. Portanto, se a gente olhar toda a política industrial, ela é construída para que a gente ganhe eficiência do sistema produtivo brasileiro, na produção e na distribuição. Tudo isso é fundamental para que se tenha um ganho de eficiência econômica e que isso gere redução de custos na produção e distribuição.
Mas como fazer essa conta fechar na eficiência nos custos?
A infra-estrutura é um caminho. Se antes demorava dez dias para chegar com seu produto no porto, agora está chegando em dois, isso reduz o custo envolvido. E provavelmente o impacto dessa redução de custo é bem maior que a diferença cambial que ocorre hoje. Então, tem outras formas de se ganhar eficiência. E é justamente nisso que o governo federal está trabalhando. Além disso, temos a melhora do financiamento, com taxas de juros de longo prazo e o aumento de volume de recursos. É uma série de ações do governo que congregam a política industrial e tecnológica de comércio exterior. Além disso, tem redução do IPI de máquinas e equipamentos, aceleração do processo de apreciação, corte de tributos na área de investimentos. Tudo isso leva a uma redução de custos. Então não dá para dizer que o empresário não exporta por causa do câmbio. É um intimidador, mas não é um impeditivo. Mesmo porque, se fosse um impeditivo, as exportações não estariam crescendo da forma que estão. E não são só as commodities que vêm crescendo. Produtos dos setores de transporte e de média e alta tecnologia também vêm se expandido na balança. Portanto, esses elementos são fundamentais para fortalecer, ainda mais, o portifólio das exportações brasileiras.
O sucesso de muitos projetos de exportação foi conquistado pela persistência, insistência e criatividade. Hoje muitas redes internacionais de lojas de departamentos e hipermercados estão com produtos brasileiros. O Sr. dará continuidade a esse trabalho?
Sem dúvida. Um ponto importante é o trabalho de reduzir a distância entre o consumidor final e o produtor, e além disso, obviamente, melhorar a imagem do produto brasileiro para o consumidor final. Muitas vezes, principalmente em grandes lojas no exterior, as pessoas até compram produtos brasileiros, mas não ligam o produto ao país. Isso é persistência mesmo. Não tem outra forma. E temos que dar continuidade a esse trabalho, que é fundamental para o comércio exterior.
Vários setores da região de Campinas se fortaleceram com as exportações nos últimos anos. Estes setores continuarão com apoio da Apex?
A região de Campinas, dada a diversidade produtiva, é favorecida por qualquer política que o governo crie. A região foi fortalecida não só por questões de exportações. Nos últimos anos houve uma série fantástica de aumento de investimento na região, principalmente nos complexos eletrônico e de máquinas e equipamentos, que são empresas de perfil exportador, que não têm relação direta com o direcionamento da política de promoção das exportações. Na verdade, quando a gente pensa do ponto de vista de serviços em Tecnologia da Informação, não foi pensado em promoção das exportações e sim sob a ótica de uma lógica de política industrial. E isso porque Campinas tem um ambiente propício ao desenvolvimento e ao empreendedorismo, e uma capacidade de gerar conhecimento, dada a sua estrutura produtiva e suas universidades, que favorecem que os investimentos sejam feitos na região.
O sr. acha que há setores que precisam de avanço?
Acho fundamental buscar dinamizar a internacionalização de setores importantes da economia.
E quais são eles?
Toda a cadeia de eletroeletrônicos, por exemplo. A própria área de etanol que está se expandindo. Máquina e equipamentos. O mercado asiático, por exemplo, é pouco explorado pelo Brasil. O Leste Europeu, os países nórdicos também.
O sr. está visualizando algo nesse sentido?
Provavelmente. É fazer um trabalho por cadeias produtivas brasileiras para que elas tenham inserção em mercados nórdicos, por exemplo, como a gente já vem fazendo. Iniciamos um trabalho na Polônia, outro na Rússia, que precisam ser aprofundados e fortalecidos. A Abimaq acabou de inaugurar um escritório na China, que mostra que é um setor de máquinas e equipamentos extremamente competitivo, entrando num mercado onde todos têm medo, porque é um mercado que exporta muitas máquinas. Mas nós temos certeza que temos competência, qualidade e inovação tecnológica capaz de agilizar nosso aumento de mercado nesse país.
META “Fortalecer a estrutura, principalmente das pequenas e médias para que tenham melhor capacidade de exportação.”
CONCORRÊNCIA “Ou seja, levar o produto certo para o mercado certo é o que chamamos de inteligência comercial.”
POTENCIAL “O mercado asiático, por exemplo é pouco explorado pelo Brasil. O Leste Europeu, os países nórdicos também.”
Fonte: Vilma Gasques / DA AGÊNCIA ANHANGÜERA vilma@rac.com.br
