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Fruticultura de precisão

Tecnologia favorece o monitoramento nas diversas etapas da produção, prevenindo problemas e reduzindo custos.

Considerada a atividade econômica de maior risco em todo o mundo, sujeita ao frequente ataque de pragas e às mudanças diárias do clima, a agricultura sofre ainda com o constante aumento dos custos de produção. Para evitar desperdícios e aumentar a eficiência, hoje é possível usar tecnologias que racionalizem a aplicação de insumos e gerenciem com precisão a produção agrícola. Mas, para maximizar o retorno do investimento, não basta se cercar de bons equipamentos. É preciso o apoio de pessoal gabaritado para entender as informações obtidas com a tecnologia e aplicá-las em favor da produtividade. “Temos equipamentos que podem ser usados em diversas culturas para auxiliar os agrônomos em campo. Um exemplo é o medidor do teor de clorofila para saber se a planta recebeu a dose correta de adubação. O que muda é a interpretação dos resultados, pois cada cultura tem um teor de clorofila adequado”, diz o empresário Márcio Albuquerque, um dos sócios da Falker Automação Agrícola, de Porto Alegre (RS). Esse produto é utilizado por pesquisadores em videiras do sul do país porque a tecnologia racionaliza o uso de adubação nitrogenada, a partir do mapeamento dos locais onde há maior ou menor necessidade de aplicação. Outra linha da empresa aplicada à fruticultura é a dos medidores de compactação do solo. “Com este medidor de fácil uso, é possível saber quais áreas do campo estão excessivamente compactadas, o que dificulta o crescimento e o desenvolvimento de raízes, causando queda na produtividade.”

Para o monitoramento da irrigação das frutas, a Netafim - companhia israelense que detém 60% do mercado mundial de irrigação localizada – oferece um sistema baseado em rádio frequência, chamado Irriwise, pelo qual sensores de uso comum na agricultura irrigada, como tensiômetros (que medem a tensão em que a água está retida nas partículas de solo) e medidores de água (que medem o volume de água aplicada), enviam dados on-line inerentes ao processo para uma central a cada 15 minutos, disponibilizando-os para análise e tomada de decisão de adequação no manejo, otimizando, assim, o uso de insumos (água, energia, fertilizantes etc). O sistema já é usado em várias culturas no Brasil, como café e citrus, e no Exterior, especialmente para o cultivo de uvas. “Mas aqui também temos projetos aplicados a essa fruta, produzidas tanto para a fabricação de vinho no Sul do país, quanto para o consumo in natura, em Pernambuco”, afirmam Bruno Toniello e Bruno Alves, respectivamente gerente de Tecnologia e engenheiro agrônomo da subsidiária da empresa no Brasil. O investimento para se adquirir a tecnologia, segundo eles, é difícil de ser estimado, pois cada projeto tem um valor, devido às particularidades das diferentes culturas de frutas. Quanto ao retorno, “no caso do uso do Irriwise, temos clientes que afirmam terem pagado o sistema no primeiro ano de uso apenas com a economia de energia”, asseguram.

RESISTÊNCIA NA UTILIZAÇÃO

Há no mercado nacional uma ampla oferta de máquinas para pulverização a fim de se obter uma aplicação precisa na fruticultura. “Temos diferentes modelos, adaptados para cada situação, que fazem com que as gotas efetivamente cheguem ao alvo. E nossa maior demanda no setor de fruticultura são as pontas de pulverização, principalmente as do tipo cone vazio, utilizadas nos turbos atomizadores”, diz Kleber Colomarte, gerente de Assistência Técnica da Teejet Technologies no Brasil, multinacional norte- americana, que oferece componentes para pulverização. O único problema, segundo Colomarte, é a pouca procura pela tecnologia entre os fruticultores, se comparado a outras culturas agrícolas. O pesquisador Hamilton Humberto Ramos concorda que existem mais técnicas precisas para a pulverização no mercado do que há 15 anos. “Verifico, por exemplo, maior número de bicos na barra dos equipamentos e isso é precisão, pois traz maior controle e eficiência da pulverização”, explica. Como a fruta tem maior consumo in natura, se há resíduo químico inadequado, o produtor não consegue vendê-la no mercado externo. “No Brasil, o consumidor também tem acordado para o problema dos agrotóxicos, o que exigirá mudanças do produtor.” Em relação ao uso de equipamentos de controle, como eletrônica embarcada, Ramos acredita que a fruticultura está muito aquém do que se utiliza atualmente no plantio de grãos. Para convencer o fruticultor que não está acostumado a produzir de forma precisa, Ramos acredita que são necessários argumentos fortes. “No caso do citricultor, por exemplo, informamos que o tradicional volume de calda pulverizado para o tratamento fitossanitário do pomar pode ser reduzido de 20% a 70%, se usada a técnica correta de pulverização”, diz ele, que também é diretor do Centro de Engenharia e Automação do Instituto Agronômico (IAC), em Jundiaí (SP), e responsável por diversos trabalhos de pesquisa ligados a citrus, desenvolvidos em parceria com o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), há mais de 15 anos. O especialista lembra que, hoje, o custo de pulverização representa entre 40% e 60% do custo total da produção citrícola, e já está ultrapassando até o gasto com adubação. “Só com a economia que se faz com tecnologia de precisão, dá para comprar um pulverizador zero a cada safra ou a cada safra e meia. Então, se o citricultor não pode vender mais caro para repassar os altos custos de produção, tem que aprender a produzir mais barato.”

A Ag Solve, sediada em Indaiatuba (SP), dispõe de uma linha de estações agrometeorológicas e sensores de umidade do solo para monitoramento do clima e água disponível, com aplicação em cultivos protegidos, viveiros de mudas, áreas irrigadas, além de softwares para cálculos, como ponto de orvalho e evapotranspiração. “Mesmo com a oferta de vários equipamentos e softwares para gerenciamento de culturas no país, não temos demanda dos nossos equipamentos para aplicação na fruticultura. Com eles, o produtor poderia antever problemas e se precaver, o que geraria uma economia maior na produção”, observa Mauro Banderali, diretor da empresa que nasceu voltada para a agricultura, mas hoje tem como maior cliente a indústria de mineração e sucroalcooleira. Segundo ele, entre as possibilidades que o fruticultor pode ter está a determinação exata da quantidade e momento da irrigação, aplicação de agroquímicos e fertilizantes; a determinação precisa do florescimento e frutificação, os efeitos do clima durante as fases vegetativa e produtiva das culturas; o acúmulo de horas de frio ou graus-dia, a modelagem da incidência de pragas e predadores, além do relacionamento direto entre produção e produtividade com os efeitos da meteorologia. “Mais do que falta de recursos financeiros, acredito que os agri- cultores devam ser capacitados para aplicar as tecnologias da meteorologia em campo”, analisa Banderali. ”Tenho um fornecedor de equipamentos que monitora, nos Estados Unidos, uma área de 2,4 mil hectares de alface irrigado. Dispomos da mesma ferramenta, mas nosso produtor não aplica a tecnologia disponível pela ausência de empresas de extensão que os ampare, treine e capacite. Investe-se alto em maquinários para plantio, mas não para acompanhar a lavoura durante as intempéries. Também em razão das proporções de nosso país, a meteorologia é generalizada e perde o foco para o pequeno e médio produtor.”

SISALERT MAÇÃ

Alguns produtores no Sul do país já contam com uma ferramenta de informações que mostra a situação das doenças no campo, principalmente na cultura da maçã, podendo otimizar rapidamente as decisões sobre o manejo delas. Trata-se do SisAlert, sigla de Sistema de Previsão de Risco de Epidemias de Doenças de Plantas. “É um moderno sistema computadorizado para o manejo das doenças dessa e de outras culturas, que visualiza os dados climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e encaminha-os à rede de estações meteorológicas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). As informações capturadas e armazenadas na base de dados vão para modelos de simulação de riscos de ocorrência das doenças e são disponibilizados na internet para os usuários”, explica a agrônoma Rosa Maria Valdebenito Sanhueza, responsável pelo setor de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) na empresa Proterra Engenharia Agronômica, onde realiza pesquisa na área de doenças de frutas temperadas.

O sistema fica em execução permanente e, na situação do risco de ocorrência da doença, os usuários são automaticamente informados por meio de mensagens enviadas pelo telefone celular, no correio eletrônico e na página do sistema. No caso da maçã, oferece a previsão do risco de ocorrência de três doenças da macieira: a sarna, a mancha foliar da Gala (Glomerella) e a podridão branca, usando modelos já validados. Segundo Rosa Maria, a informação que sustenta o SisAlert-maçã advém de pesquisa científica validada na área de produção durante três ciclos. “O programa é continuamente atualizado e, à medida que surgem dados novos da pesquisa e da experiência dos usuários, é modificado para abrigar os novos conhecimentos.”

A ideia do SisAlert surgiu em 2000, quando a Embrapa Uva e Vinho conduzia pesquisas para desenvolvimento, validação e ajuste de modelos de doenças da macieira sob a coordenação de Rosa Maria, que deixou a instituição em 2008. A utilização do serviço, no momento, é restrita a técnicos cadastrados de quatro empresas produtoras de maçãs de Vacaria (RS), que contribuíram para aquisição das estações meteorológicas automáticas, e a pesquisadores da Embrapa Uva e Vinho. “A estação da Embrapa em Vacaria também é acessada pela Associação Gaúcha dos Produtores de Maçã (Agapomi), que disponibiliza os alertas aos seus sócios. Não há custo direto para o uso do sistema, mas os participantes do programa sustentam sua manutenção”.

Com o SisAlert, os usuários relataram que obtiveram um controle eficaz e ambientalmente correto das doenças, além de racionalizarem o uso de agrotóxicos utilizados no combate aos problemas da macieira. Os resultados com a maçã, o trigo e a soja permitirão expandir o sistema para outras culturas, como citrus, morango, pêssego e uva.

Fonte: Revista Frutas e Derivados
Publicada: 09/08/2010

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